domingo, 28 de outubro de 2007

O rei nu mostra seu veneno

Manifesto contra nariz de palhaço
Sei que cultivo irritações ao condenar os narizes de palhaço em manifestações, então vou me explicar para o mundo; vou dizer porque sou contra o nariz de palhaço neste post-manifesto.
O pensamento de quem coloca um nariz de palhaço para participar de um ato tem o dizer subentendido de que "estão me fazendo de palhaço" ou "só palhaço para agüentar isso", ou mesmo "não sou palhaço". Pronto, não consigo ir além disso nos "pontos positivos" do adereço vermelho.
Você não é, mas querem fazer-lhe de palhaço. Ok. Então para que usar o nariz se você não é palhaço? Seria, porém, um ato bastante simbólico e interessante se todos os manifestantes chegassem com nariz de palhaço, fizessem suas reivindicações e gritassem: "Não somos palhaços!". E todos tirariam seus narizes, pois, no ato, mostrariam que não são palhaços. Aí sim! Mas nunca soube de tal ato, embora torço para que tenha existido. Se existente, deveria ser melhor divulgado; quem sabe assim, mudariam essa triste tendência de se auto-intitular, mesmo contra a vontade, de palhaço.
Não seja! Não se deixa enganar! E tenha a certeza de que está dizendo isso nas manifestações! Se é para usar narizes, que seja para retirá-los, e não ficar com eles.
Quer mantê-los? Então seja um bom los-hermaníaco e torça para que voltem a fazer um show para usar lá, e, se o Rodrigo Amarante estiver bêbado no show, seja um palhaço para essa apresentação maravilhosa. Cruzo meus dedos!
Só não apareça em um ato de ocupação de universidade usando o adereço vermelho, principalmente porque aconteceu já que não queriam acatar o que havia sido imposto.
E sem ressentimentos.

Ocupa : communitas
Pois é, a reitoria da UFC foi ocupada pela 2ª vez no ano, agora contra o Consuni e o Reuni. Para maiores informações e fotos, confira o blog. Lembrando dos tempos de maio e junho e das ocupações das universidades por melhorias, a partir da USP, eu deveria estar bastante feliz pela realização desse grande feito pelo movimento estudantil da UFC. Participei do ato, entrei na reitoria, ocupei, dormi, mas é uma situação bastante tensa e frágil. Talvez quem esteja fora pense que é algo coeso; lê o blog e vê como se tudo fosse harmônico. Não, não. Nada é harmônico. Lemos sobre os acontecimentos históricos muitas vezes como se um fosse a seqüência natural do outro, mas não é; tudo é um jogo de forças.
Desde o ano passado, um grupo de movimento estudantil vem se articulando na universidade, como o representante do PSOL no movimento estudantil - prática bastante comum no Brasil, como imagino que seja nos outros países. Estudantes que apóiam um partido, formam um grupo para medidas semelhantes na instituição. Chama-se Amar e Mudar as Coisas e é o grupo de destaque nesta ocupação, o que tem suscitado reuniões conspiratórias de outros grupos menores aqui e ali. Tudo é envolvendo projeto de país e tal, mas é bastante interessante essa situação. Do mesmo jeito que os "PCdoBeianos" defendem e acham maravilhoso tudo o que o governo federal propõe, além dos próprios petistas na universidade, que são basicamente o DCE, o A.M.a.C. caminha para o fortalecimento do grupo. Se Psol um dia conseguir a presidência com sua mestra Helô, os que querem amar e mudar serão a voz que tudo apóia e defende, porque é assim que grupos cada vez mais institucionalizados funcionam.
Nas aulas de Antropologia II, estamos lendo o fantástico Victor Turner, em O Processo Ritual [quem quiser me dar o livro, eu aceito], no qual fala de "communitas". Basicamente, a communitas é um movimento espontâneo anti-estrutura, tal qual é todo e qualquer movimento. Com o tempo, o grupo sente a necessidade de criar leis e regras, tornar-se normativo, e isso pode destruir a communitas, porque ela não consegue se manter com leis, ou ela pode ser destruída, ou menos virar estrutura. Voltando para a realidade, um grupo que cria leis e torna-se aparelhado perde a espontaneidade, mas torna-se organizado, e esse é um caminho quase natural para os grupos que desejam se manter. Tornam-se estruturas, com regras, lideranças, seguidores e pensamentos pré-determinados, seguindo cartilhas.
Um exemplo oposto é de grupos espontâneos que nascem simplesmente pela espontaneidade. São aberturas ou fechaduras que as pessoas encontram para terem um momento. Querem vivê-lo, querem pensar de seu modo, ser como querem, sendo contra o que existe, e a coisa pode deixar de existir depois, mas a idéia fica. Assim temos os beatniks, os situacionistas, os hippies. Eles não queriam seguidores; mas eles que eram seguidos. Os dois primeiros eram restritos porque eram de fato um grupo pequeno, para viver um momento e uma idéia; os terceiros foram muitos pelo mundo, mas todos nos princípios.
Na política, movimentos efêmeros são porra-louquismo, mas os burocratizados são dogmáticos. Fica o jogo de forças mesmo, tão característico da vida: como trabalhar a espontaneidade e a estruturação? Entre um solto independente e um fechado partidário. O desafio é jogar com o meio termo; não ser tão solto, nem tão preso. É senso comum isso? Não creio, se não ele existiria já.

3 alô(s):

CresceNet disse...

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joão miguel disse...

ahn?

::..Bel..:: disse...

Aaaaai, o nariz de palhaço.
já deveria ter superado essa questão também, mas sabe o que é?
eu concordo contigo, apesar de achar um alarde meio grande para isso, eu concordo. o negócio é que sempre parece oposto...hehehe
até porque a lógica é, se você está protestando, se manifestando, é porque não quer ser feito de palhaço e a idéia do ato é boa, mas, infelizmente, meio impossível.
deveria era acabar essa distribuição de narizes em manifestações, isso é meio idiota, é como se o "organizador" estivesse me fazendo de palhaça, isso que parece.
quanto aos shows de Los Hemanos, alto-lar neguinho, alto-lar!
Lá vem você e seus traumas de shows dos barbudinhos.
O amarante pode ter um comportamento patético vezenquando, mas considerar que a apresentação do grupo seja ruim é outra bem diferenre.
o grupo é bom, essa ‘estrelinha’ aí é que complica um pouco, mas a gente paga pelo conjunto da obra e, particularmente, sempre vale a pena. (falou uma boa los-hermaníaca!) xD

Essa ocupação é outra coisa que já deu o que tinha que dar e se mantém ainda sabe deus como...
a observação histórica que cê fez é bastante válida, sustenta um pouco o clima desanimador que me toma hoje, pensar que nem tudo são rosas nessas grandes mobilizações, que está parte é ocultada pra dar um ar coeso mesmo.
só não gostei da generalização de que os "PCdoBeianos" e petistas apóiam e acham maravilhoso tudo que é proposto pelo Governo Federal.
Você não pode referir-se a todos, mas a uma boiada que existe, como em todo movimento.
cadê o Boas na tua vida, garoto? NADA DE GENERALIZAÇÕES! =)
okay, desculpe, mas é que agrediu uma parte de mim...hehehe
e, infelizmente, imagino o mesmo futuro pro PSOL da Helô-sem-noção.
esse "baixar de cabeça" parece inerente aos que conquistam o tal 'poder'. é triste, mas parece ser assim o 'sistema' dessas coisas. O fim das contestações.

apoiar o 'meio-termo', às vezes, me dá medo de ser mal interpretada. o negócio é não encarar meio-termo como ''estar em cima do muro''. Meio-termo é saber negociar, ser flexível com as partes envolvidas, entender a posição do outro, sem permitir que a sua seja ocultada.
nessa "communitas" aí o que nos resta é aguardar se vai acontecer a reintegração à estrutura dignamente ou isso será feito forçadamente, desmerecendo até mesmo as vitórias alcançadas.
neste caso, não vejo como acontecer uma "cisão social".
aliás, a cisão parece estar ocorrendo somente dentro do ME, que nessa briga por lideranças, bem como conceituou um amigo nosso, nessa "fogueira de vaidades", os grupos presentes vão se ausentando deixando o movimento fraco e disperso.
até as pessoas que dizem querer amar e mudar parecem já estar desistindo. =/
detesto terminar as coisas dessa maneira desacreditada, mas essa ocupação apaga todo o meu interesse e empolgação sobre o tema, tão comentado épocas atrás.
e aí, que acha, ainda devo deixar-me acreditar? ^^