Tem algum tempo que um assunto está martelando meus pensamentos, porque além de ser uma preocupação pessoal, é também uma questão social. Alguns poderiam chamar de modo de produção, outros de cultura material; enfim, como é hoje nossa relação com a natureza para a construção cotidiana da vida contemporânea?
A vida urbana oferece a realização da necessidade de alimentação pelo comércio, assim como outras necessidades criadas na própria vida urbana. Necessidades criadas, que logo criam relações de dependência e importância em si mesmas. Produtos tecnológicos que nos fazem pensar como antes conseguiam viver sem, e.g. celular, computador, internet, avião etc. E também outras mercadorias que compõem o cotidiano, como quinquilharias, copos descartáveis, junk food, etc etc etc. De que são feitas essas coisas?
No meu curso de Antropologia II, lembro bem do capítulo de Argonautas do Pacífico Ocidental no qual Malinowski descreveu os modos de construção de canoas, explicitando os tipos de madeira, os dias recomendados, as modalidades de corte, as possibilidades de flutuação numa descrição entendiosa e sem fim. Estava sendo ali divulgado o modo de construção de canoas. Qual é o modo de construção de um celular? Há matérias-primas tão diversas, e são tantos os produtos hoje, que é complicado ter controle sobre como e de quê todos são feitos. O distanciamento na relação homem e natureza é cada vez maior entre os citadinos, apesar dos que intentam o contrário, apresentando-se como alternativas.
Para ilustrar o caso das sociedades contemporâneas, um shopping center aparece como o grande lugar do consumo, na sua variedade de lojas e opção de produtos, inclusive com supermercados - o lugar do excesso e do desperdício.
Essa imagem contrasta bastante com as imagens que o Fórum Social Mundial 2009 se empenhou em transmitir na edição realizada Belém, região "pan-amazônica". A crítica ao atual modelo hegemônico de sociedade - a sociedade de consumo - fez-se com a apresentação de uma alternativa localizada no extremo oposto, se colocarmos a "sociedade de consumo" numa ponta, as sociedades indígenas da Amazônia apareceriam talvez na outra ponta. O impacto das sociedades indígenas amazônicas no ambiente em que vivem é entendido como menor que o nosso. Tudo bem, isso parece claro no senso comum, mas também as proporções das sociedades são diferentes. Os estilos de vida dos 'povos originários' apareceram como referências ideais para pensarmos nossa relação com a natureza, muito embora entendamos que o caminho passa também (e talvez principalmente) pelo uso (inteligente, eu posso dizer isso?) de novas tecnologias. Assim como as canoas para os trobriandeses, o arco e flecha, as armadilhas, as técnicas de agricultura e de extrativismo e as atuais técnicas complementares para os indígenas amazônicos, a construção material da vida contemporânea perpassaria quais técnicas para uma relação homem-natureza que mudasse de rota para uma maior harmonia? O empenho da dita 'consciência ambiental' entra em choque com as tecnologias, com as decisões políticas, com a cultura, com a sociedade de consumo...?
ps: hoje vi um pedaço da aula de Antropologia I, ministrada por minha professora de Antropologia II, e lembrei de como me sentia em suas aulas, o que ela me permitiu pensar, tanto por suas falas, como por suas leituras sugeridas. Tive vontade de falar com ela no final, agradecê-la, fazer um acknowledgement, mas a trava pessoal falou mais alto - por enquanto.
A vida urbana oferece a realização da necessidade de alimentação pelo comércio, assim como outras necessidades criadas na própria vida urbana. Necessidades criadas, que logo criam relações de dependência e importância em si mesmas. Produtos tecnológicos que nos fazem pensar como antes conseguiam viver sem, e.g. celular, computador, internet, avião etc. E também outras mercadorias que compõem o cotidiano, como quinquilharias, copos descartáveis, junk food, etc etc etc. De que são feitas essas coisas?
No meu curso de Antropologia II, lembro bem do capítulo de Argonautas do Pacífico Ocidental no qual Malinowski descreveu os modos de construção de canoas, explicitando os tipos de madeira, os dias recomendados, as modalidades de corte, as possibilidades de flutuação numa descrição entendiosa e sem fim. Estava sendo ali divulgado o modo de construção de canoas. Qual é o modo de construção de um celular? Há matérias-primas tão diversas, e são tantos os produtos hoje, que é complicado ter controle sobre como e de quê todos são feitos. O distanciamento na relação homem e natureza é cada vez maior entre os citadinos, apesar dos que intentam o contrário, apresentando-se como alternativas.
Para ilustrar o caso das sociedades contemporâneas, um shopping center aparece como o grande lugar do consumo, na sua variedade de lojas e opção de produtos, inclusive com supermercados - o lugar do excesso e do desperdício.
Essa imagem contrasta bastante com as imagens que o Fórum Social Mundial 2009 se empenhou em transmitir na edição realizada Belém, região "pan-amazônica". A crítica ao atual modelo hegemônico de sociedade - a sociedade de consumo - fez-se com a apresentação de uma alternativa localizada no extremo oposto, se colocarmos a "sociedade de consumo" numa ponta, as sociedades indígenas da Amazônia apareceriam talvez na outra ponta. O impacto das sociedades indígenas amazônicas no ambiente em que vivem é entendido como menor que o nosso. Tudo bem, isso parece claro no senso comum, mas também as proporções das sociedades são diferentes. Os estilos de vida dos 'povos originários' apareceram como referências ideais para pensarmos nossa relação com a natureza, muito embora entendamos que o caminho passa também (e talvez principalmente) pelo uso (inteligente, eu posso dizer isso?) de novas tecnologias. Assim como as canoas para os trobriandeses, o arco e flecha, as armadilhas, as técnicas de agricultura e de extrativismo e as atuais técnicas complementares para os indígenas amazônicos, a construção material da vida contemporânea perpassaria quais técnicas para uma relação homem-natureza que mudasse de rota para uma maior harmonia? O empenho da dita 'consciência ambiental' entra em choque com as tecnologias, com as decisões políticas, com a cultura, com a sociedade de consumo...?
ps: hoje vi um pedaço da aula de Antropologia I, ministrada por minha professora de Antropologia II, e lembrei de como me sentia em suas aulas, o que ela me permitiu pensar, tanto por suas falas, como por suas leituras sugeridas. Tive vontade de falar com ela no final, agradecê-la, fazer um acknowledgement, mas a trava pessoal falou mais alto - por enquanto.
1 alô(s):
"Tive vontade de falar com ela no final, agradecê-la, fazer um acknowledgement, mas a trava pessoal falou mais alto - por enquanto."
Qualquer dia, num bar, depois de algumas. Você vai lá e fala pra ela. :]
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