quinta-feira, 9 de abril de 2009

Na natureza selvagem

{primeiro texto de 7 de março de 2009 ~ na geladeira por um tempo ~ juntei agora com outras referências}

Ano passado, minha irmã alugou esse filme. Apenas passei pela tv, e uma paisagem deslumbrante me obrigou a ficar e ver uma parte. "Alex Supertramp" queria percorrer um rio e violou uma lei para fazê-lo, pois a burocracia exigia autorização de meses antes. Não gostei do que vi, saí, mas depois voltei. A história dele me causava náusea; eu via, em filme, algo que eu poderia muito bem fazer.
Seis meses depois vi Into the Wild na tv, mas agora por inteiro e sozinho. Gostei - com toda a intensidade que este verbo pode ter.

Sobre a história, alimentei uma discussão na faculdade. McCandless morreu arrependido da jornada? "Ele terminou pensando nos pais, na irmã, nas pessoas que tinha conhecido. Ele escreveu que felicidade só é vivida se compartilhada! Ele queria voltar". Mas querer voltar significa que a jornada havia valido, tinha sido elucidado prioridades. Ele havia sido feliz, havia compartilhado sua vida com estranhos, aventurado-se, sido ele mesmo, sozinho ou acompanhado.
O extremismo da jornada ao Alasca, apesar de ter se deparado com lírios no campo até lá, é a demonstração do desejo pela purificação, do combate aos "demônios". Não apóio a idéia de que os pais são aqueles que podemos culpar por tudo, mas devemos 'matá-los' em algum momento. Não seguir o esperado foi a forma de McCandless fazê-lo; sua jornada da alma, viver da natureza, mesmo quando matar um alce surpreende a ele mesmo. Ele precisava viajar sozinho, anônimo, porque isso que tinha algum significado. Quando quis deixar o Alasca, vejo que foi pela realização de que combater o vazio da hipocrisia dos valores da sociedade era algo que encontrava força nele mesmo, mas ele precisara deixar tudo, ver a si mesmo no distanciamento dos outros, sair da lógica em que pessoas desempenham esses valores, para não só viver conforme seus próprios valores idealizados, mas também de se sentir preparado para voltar - para o quê, não sabemos.
Pensar nos pais na hora da morte acho que veio mais pela conexão da agonia da intoxição com a agonia de viver junto a seus pais, e suas felicidades forjadas, de fachada, enquanto viviam como inimigos. E também... é um filme. Será que ele realmente pensou nos pais ao final? Ele queria voltar para eles? O filme foi feito a partir do diário. Pensar nos pais pode ter sido desejo da irmã, da biografia, do diretor.
Para mim, o que fica é a jornada. A 'necessidade' da missão que se contrapõe a outros e que pretende chegar a algum lugar.
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Ontem [8 de abril] , no curso de Sistemas Simbólicos, vimos o filme 'O Homem-urso' (Grizzly Bear, 2005), que conta a história verídica de Timothy Treadwell, um ambientalista estadunidense que se isola entre os ursos grizzly no Alasca, como forma de chamar a atenção das pessoas para a proteção dos animais. Com uma filmadora, ele gravava a si mesmo falando para "as pessoas", um público que se sensibilizaria com a causa.
O filme me lembrou bastante 'Na natureza selvagem' por alguns aspectos. Os 'heróis' identificam a vida pregressa ou a vida em sociedade como vazia de sentido e se colocam numa missão, uma jornada que os leva para a pureza da vida, que é a vida em natureza. Renunciam, de certo modo, e cada qual à sua maneira, à vida na lógica contemporânea, renunciam ao comportamento que é esperado deles. Os dois no final enfrentam a morte, mas por isso que suas histórias se tornaram mais conhecidas, abrindo a possibilidade de falarmos sobre eles; eles permanecem vivos, de certa forma.
O que faz alguém abandonar tudo? Quais são as motivações? Contra o quê se colocam?
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Hoje [9 de abril], vi a segunda parte do disco 1 de 'O Poder do Mito' (The Power of Myth), na qual Joseph Campbell, o estudioso de mitologia, fala de metáforas, significados e experiências de mitos hoje. Depois de adentrar a controvérsia que é dizer que deveríamos ser nós mesmos na lógica que existe, ele levanta o mito de Indra. Há algumas versões e histórias relacionadas a esse rei dos deuses da Índia, sendo uma delas a citada: "Indra e as formigas", presente no Brahmavaivarta Purana. Ao perceber que o mundo está em ciclos de surgimento e destruição, Indra se torna humilde perante suas pretensões de grande rei e decide se tornar iogue (yogi) e se isolar. A mulher dele não aceita, procura um líder espiritual e esse aconselha Indra a ficar como rei, pois esse é seu lugar. Ele deveria encontrar, como líder político, uma forma de ser espiritual.
* * * * *
Bem... No próprio filme, Campbell fala dos heróis, os grandes líderes espirituais que foram Buda, Jesus e Maomé, e como todos esses tiveram momentos de isolamento para se depurarem e encontrarem sua missão. Por que, então, a missão de Indra deveria ser tomada como líder político? Também esse era um dos dois destinos esperados de Siddharta: líder político ou líder espiritual. O isolamento foi para se encontrar. Seria possível, então, para Indra se encontrar sem sair fisicamente? O encontro com os deuses teria sido o bastante? A história é para aceitar o destino que nos é apontado, mesmo que imprimamos mudanças nele?
Christopher McCandless e Timothy Treadwell deveriam ter ficado? Deveriam ter tentado serem outros nos seus lugares anteriores? Mas também... hoje, o que é o lugar? Há um lugar para se permanecer? Há um destino para seguir? O mundo deveria ou não deveria estar aberto para o deslocamento?

4 alô(s):

Lara Vasconcelos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lara Vasconcelos disse...

"E, com essas instruções, Indra desiste da idéia de largar tudo para se tornar um iogue, e
descobre que, na vida, ele pode representar o eterno como um símbolo, pode se dizer, de Brahma.Assim, cada um de nós é, de certo modo, o Indra de sua própria vida. Você pode escolher,
ou se livrar de tudo e se isolar na floresta para meditar, ou permanecer no mundo, tanto na
vida de sua tarefa, que é a régia tarefa da política e da realização, quanto na vida do amor
por sua mulher e sua família."

Eu não vejo a escolha de Indra como a rejeição total de outras possibilidades. Ele poderia ter escolhido simplesmente se isolar e encontrar "iluminação espiritual". Ele poderia simplesmente se tornar rei e fincar a idéia no governar e amar sua esposa. Mas, para mim, ele fez uma escolha sábia: ficar e enfrentar seus dragões sem negar a possibilidade de encontrar respostas que, não, não estariam ali ou em qualquer parte senão nele.
Por mais que a escolha entre se isolar e permanecer pareça inegociável, não vejo assim.
Ser Indra de si mesmo é saber medir, de certa forma, as reais proporções do ir e do permanecer.(Entenda: Ir e permanecer, aqui, não me parece ser uma referência literal. Acho que está alem disso.)Do alçar vôo e do ter raízes firmes na terra. É possível ir e ficar, pois a questão, aqui, não é espacial.
Será necessário ir para o Alasca para estar só? Será necessário morar com os ursos para descobrir quanto potencial afetivo você pode ter? Será necessário "ir para fora" para compreender o "dentro"?
A idéia de romper fisicamente com o aqui pode ser tão ilusória quanto a idéia de que fincar raízes na terra é ser firme. Pois não importa onde vai ser: A resposta sempre estará no mesmo canto. E este lugar não está no mapa.
A viagem, sem dúvida, me parece percorrer um rio e violar a lei. Um rio que não sabemos o nome e nem onde vai dar. Que corre em mim. Em você. E que sempre vai desaguar num oceano bem maior que nós todos. Num oceano onde desaguaram outro rios. Onde desaguaram outros Indras.
Quanto aos lugares: Eles só existiram, de fato, quando sob seus pés.






Tenho muita coisa para te dizer. Sei que não vou conseguir tão cedo. Tudo que eu posso te dizer, por hora, é que terei para você um novelo nas mãos: Seja para tecer e desmanchar tapetes, seja para te esperar na saída do labirinto.

Enquanto isso eu navego. Porque navegar é preciso. Tanto quanto viver. E eu escolhi fazer do segundo o primeiro.

joão miguel disse...

O post que mais me agradou de mim mesmo. haha :)

Luciana disse...

Acabei de assistir ao filme "Na Natureza Selvagem". Adorei! Talvez não precisemos ir até ao Alasca para descobrirmos A VERDADEIRA ESSÊNCIA DO SER HUMANO ou será que precisamos? não sei... mas com certeza os valores da sociedade atual estão distorcidos e nossa saúde mental é a principal vítima. Porque precisamos fingir que somos fortes? porque o chefe de uma grande empresa não pode chorar e mostrar suas fragilidades(q são inerentes de td ser humano)? porque precisamos esconder o que sentimos? Temos "liberdade" mas vivemos numa escravidão:seguimos um padrão que é imposto e qualquer coisa que saia do tido como "onrmal" é criticado. Tem q usar a roupa da moda,a cor da moda, temos q ter o peso da moda,frequentar os lugares mais badalados, etc...o que nos sobra para escolher?? nós apenas seguimos como nos é imposto. Nos preocupamos demais com a beleza física, situação financeira e deixamos de enxergar o outro como um ser humano...somos todos iguais!