terça-feira, 15 de maio de 2007

Mudançofágico

Essa imagem é capa da revista Piauí de uns meses atrás, e a peguei por fazer exatamente a relação que desejo evidenciar: como os movimentos de contestação do sistema são transformados com o tempo. Che Guevara, ícone revolucionário na América Latina e no mundo por sua atuação em alguns países do continente, é objeto de adoração de jovens que precisam comprar a camisa com sua imagem e seu nome para serem consideradas "não-alienadas" ou "mais revolucionárias". A camisa tem um valor social por garantir esse status ao usuário, que a comprou com dinheiro (o mediador para obtenção das coisas = mercadorias). É um objeto com determinado valor no modelo de distribuição, em que as forças produtivas são privadas.

O capitalismo é tão complexo e parece tão enraizado que sempre segura as mãos de quem quer pegar o ônibus mágico que leva para o longe, para o diferente do mundo atual. Ele tem essa capacidade de transformar quase tudo que o contesta, que vai contra ele: movimento hippie, rock, "revolucionários", movimento ambiental. Tudo é transformável em mercadoria, tudo pode ser vendido e, por conta disso, não há ruptura. Não importa o peso simbólico da imagem ou da coisa em questão, pois será com certeza será trabalhado um novo simbolismo. Uma simbologia de status social superficial é estabelecida, que retira a carga significativa primeira, contribuindo para sua desmoralização e descaracterização.

Até mesmo as práticas da cultura da recusa podem ser e estão sendo absorvidas pelo sistema, indo a favor dele, quando deveriam se manter contra ele, na verdadeira e intencional luta anti-sistêmica. São situações difíceis que as lutas contra a ordem enfrentam, pois seus símbolos são tomados pela publicidade e pela arte gráfica como elementos de trabalho publicitário, voltada para o choque, para o 'causar espanto', e assim resultando em vendas, demandas, lucros, moda. E assim o mundo atual se perpetua, sendo a moda uma força de produção do valor, do efêmero, porque a lógica é a das mercadorias. Todo sistema cria suas contradições, mas também seus mecanismos de sobrevivência. Como superar o espírito faminto do capitalismo de comer seus adversários? Como destruir a verdadeira e grande antropofagia? Como fazer um símbolo para ficar do lado de oposição, em vez de permitir que possa ser tomado para a situação necessariamente? Até porque essa antropofagia é bem literal: o mundo come pessoas.

2 comentários:

Rodrigo Fernandes disse...

“I love and treasure individuals as I meet them, I loathe and despise the groups they identify with and belong to.” - George Carlin

Minha filosofia, de forma sintética e brilhante.

Madeleine Alves disse...

Olá, João Miguel, td bem?

Espero que sim. Meu nome é Madeleine, sou de Santos/SP e a autora do blog Signos Possíveis, nem um pouquinho famoso nem pretensioso, mas que procura divulgar e discutir as diversas nuances da arte.

Posto lá trabalhos meus e de outras pessoas, e gostei muito do seu texto "Mudançofágico" - que encontrei ao procurar justamente a foto do Che Guevara usando uma camiseta de Os Simpsons, que, por sua vez, tem a ver com um texto que acabei de escrever.

Gostaria de saber se posso colocar, no post da minha composição, um link redirecionando direto para o seu texto - com direito, é lógico, a divulgação de autoria e todas aquelas coisas a que temos direito, como escritores.

Valeu pela atenção e parabéns pelo seu trabalho!

Abraços!

Madeleine Alves
Signos Possíveis:
http://signospossiveis.blogspot.com

e-mail: madmione@gmail.com