quinta-feira, 16 de abril de 2009

Práticas ecoamigáveis #1

Quanto mais entro no mundo do ambientalismo para tentar entendê-lo "antropologicamente", mais eu retorno para o início, para as minhas origens na coisa em si. Questionamentos adormecidos por talvez serem muito básicos, por eu ter tentado respondê-los várias vezes e por conta também de um certo distanciamento que eu supunha ter hoje - mas que não tenho e nem quero ter - do assunto, comparando com momentos anteriores. O questionamento principal é a correspondência entre pensamento/discurso e prática/ação. A legitimidade do ambientalista está, claro, em satisfazer essa relação, pois "não basta só falar". A mudança existe quando o pensamento está orientado de tal maneira por pressupostos que sua ação corresponde a esses princípios.

Tal como o Personal Sustainability Project [que tentei fazer de objeto de estudo na faculdade, mas recebi um 'não'], vou mudar pequenas coisas por período de tempo. O objetivo do PSP é que as mudanças sejam motivadas por vontade e que façam a pessoa feliz, e não por obrigação ou por sentimento de culpa perante o mundo. [isso ainda me intriga; acho que daria um bom trabalho jogar com essas duas perspectivas..]

Vivo achando que faço nada, mas acredito que tenha feito e faça coisas no meu cotidiano. Estes posts vão funcionar como registro pessoal (até para que eu me convença):

1 A primeira coisa que lembro foi papel reciclado. Tem coisa mais bonita? Comprei uma resma de folhas recicladas ano passado (setembro, eu acho), e quase todos os trabalhos da faculdade que imprimo em casa são em papel reciclado. Alegam que seja caro e, tudo bem, é um pouco, mas fiz pesquisa de preço e encontrei por R$13. Foi uma compra feliz e me agrada utilizá-lo.

2 Acho que a segunda coisa foi trocar minha lâmpada incandescente do banheiro por uma fluorescente. Esta é mais eficiente porque a luminosidade não vem por calor e ilumina melhor, o que é bom para quem gosta de ler no banheiro às vezes, como eu. Por mais que eu goste (visualmente) da luz amarelada, não sinto falta.

3 Há mais de 3 semanas iniciei (finalmente) a experiência de levar uma caneca para a faculdade. Almoço lá 4 dias na semana e utilizava dos copos descartáveis, mesmo sem querer. Achei que seria transtorno explicar para alguns dos atendentes mal-encarados do Restaurante Universitário. Entendem do que falo? O momento em que você supera pequenas limitações é quando aquilo faz tanto sentido a ponto de você transformar a idéia em ação. Primeiro, peguei um copinho descartável usado de lá, enchi de água e marquei o nível correspondente do copo na caneca. No dia seguinte, fui pra lá munido da caneca e pensei a estratégia que fizesse sentido ao cara do suco: eu pegava um copinho descartável com suco, virava na caneca, e ele encheria novamente para dar pro meu amigo. Mas o cara resmungou e jogou o copo fora! Ou seja, primeira experiência frustrante. Acho que não tinha sido claro o bastante!No dia seguinte, lá estava eu com a caneca e expliquei que estava com uma caneca, tinha marc... Mas ele simplesmente pegou a caneca e encheu! Tudo bem, ponto para nós. :D Dias depois, fiquei feliz de ver que uma menina da minha sala também levava copinho de casa. Não estou só.
Desde segunda-feira, cada um enche seu próprio copinho, e eu encho minha caneca eu mesmo. Estou sendo bem-sucedido e acho que já poupei pelo menos 15 copinhos. Quantos são jogados fora diariamente? Quantos pouparei até o meio do ano?

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Na natureza selvagem

{primeiro texto de 7 de março de 2009 ~ na geladeira por um tempo ~ juntei agora com outras referências}

Ano passado, minha irmã alugou esse filme. Apenas passei pela tv, e uma paisagem deslumbrante me obrigou a ficar e ver uma parte. "Alex Supertramp" queria percorrer um rio e violou uma lei para fazê-lo, pois a burocracia exigia autorização de meses antes. Não gostei do que vi, saí, mas depois voltei. A história dele me causava náusea; eu via, em filme, algo que eu poderia muito bem fazer.
Seis meses depois vi Into the Wild na tv, mas agora por inteiro e sozinho. Gostei - com toda a intensidade que este verbo pode ter.

Sobre a história, alimentei uma discussão na faculdade. McCandless morreu arrependido da jornada? "Ele terminou pensando nos pais, na irmã, nas pessoas que tinha conhecido. Ele escreveu que felicidade só é vivida se compartilhada! Ele queria voltar". Mas querer voltar significa que a jornada havia valido, tinha sido elucidado prioridades. Ele havia sido feliz, havia compartilhado sua vida com estranhos, aventurado-se, sido ele mesmo, sozinho ou acompanhado.
O extremismo da jornada ao Alasca, apesar de ter se deparado com lírios no campo até lá, é a demonstração do desejo pela purificação, do combate aos "demônios". Não apóio a idéia de que os pais são aqueles que podemos culpar por tudo, mas devemos 'matá-los' em algum momento. Não seguir o esperado foi a forma de McCandless fazê-lo; sua jornada da alma, viver da natureza, mesmo quando matar um alce surpreende a ele mesmo. Ele precisava viajar sozinho, anônimo, porque isso que tinha algum significado. Quando quis deixar o Alasca, vejo que foi pela realização de que combater o vazio da hipocrisia dos valores da sociedade era algo que encontrava força nele mesmo, mas ele precisara deixar tudo, ver a si mesmo no distanciamento dos outros, sair da lógica em que pessoas desempenham esses valores, para não só viver conforme seus próprios valores idealizados, mas também de se sentir preparado para voltar - para o quê, não sabemos.
Pensar nos pais na hora da morte acho que veio mais pela conexão da agonia da intoxição com a agonia de viver junto a seus pais, e suas felicidades forjadas, de fachada, enquanto viviam como inimigos. E também... é um filme. Será que ele realmente pensou nos pais ao final? Ele queria voltar para eles? O filme foi feito a partir do diário. Pensar nos pais pode ter sido desejo da irmã, da biografia, do diretor.
Para mim, o que fica é a jornada. A 'necessidade' da missão que se contrapõe a outros e que pretende chegar a algum lugar.
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Ontem [8 de abril] , no curso de Sistemas Simbólicos, vimos o filme 'O Homem-urso' (Grizzly Bear, 2005), que conta a história verídica de Timothy Treadwell, um ambientalista estadunidense que se isola entre os ursos grizzly no Alasca, como forma de chamar a atenção das pessoas para a proteção dos animais. Com uma filmadora, ele gravava a si mesmo falando para "as pessoas", um público que se sensibilizaria com a causa.
O filme me lembrou bastante 'Na natureza selvagem' por alguns aspectos. Os 'heróis' identificam a vida pregressa ou a vida em sociedade como vazia de sentido e se colocam numa missão, uma jornada que os leva para a pureza da vida, que é a vida em natureza. Renunciam, de certo modo, e cada qual à sua maneira, à vida na lógica contemporânea, renunciam ao comportamento que é esperado deles. Os dois no final enfrentam a morte, mas por isso que suas histórias se tornaram mais conhecidas, abrindo a possibilidade de falarmos sobre eles; eles permanecem vivos, de certa forma.
O que faz alguém abandonar tudo? Quais são as motivações? Contra o quê se colocam?
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Hoje [9 de abril], vi a segunda parte do disco 1 de 'O Poder do Mito' (The Power of Myth), na qual Joseph Campbell, o estudioso de mitologia, fala de metáforas, significados e experiências de mitos hoje. Depois de adentrar a controvérsia que é dizer que deveríamos ser nós mesmos na lógica que existe, ele levanta o mito de Indra. Há algumas versões e histórias relacionadas a esse rei dos deuses da Índia, sendo uma delas a citada: "Indra e as formigas", presente no Brahmavaivarta Purana. Ao perceber que o mundo está em ciclos de surgimento e destruição, Indra se torna humilde perante suas pretensões de grande rei e decide se tornar iogue (yogi) e se isolar. A mulher dele não aceita, procura um líder espiritual e esse aconselha Indra a ficar como rei, pois esse é seu lugar. Ele deveria encontrar, como líder político, uma forma de ser espiritual.
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Bem... No próprio filme, Campbell fala dos heróis, os grandes líderes espirituais que foram Buda, Jesus e Maomé, e como todos esses tiveram momentos de isolamento para se depurarem e encontrarem sua missão. Por que, então, a missão de Indra deveria ser tomada como líder político? Também esse era um dos dois destinos esperados de Siddharta: líder político ou líder espiritual. O isolamento foi para se encontrar. Seria possível, então, para Indra se encontrar sem sair fisicamente? O encontro com os deuses teria sido o bastante? A história é para aceitar o destino que nos é apontado, mesmo que imprimamos mudanças nele?
Christopher McCandless e Timothy Treadwell deveriam ter ficado? Deveriam ter tentado serem outros nos seus lugares anteriores? Mas também... hoje, o que é o lugar? Há um lugar para se permanecer? Há um destino para seguir? O mundo deveria ou não deveria estar aberto para o deslocamento?

domingo, 5 de abril de 2009

Pessoas no começo de abril

Quinta-feira, uma moça que, apesar de estar aprendendo, como todos nós, tem uma ótima pronúncia sentou-se do meu lado. Abrimos o livro na página indicada por nossa professora e escuto: "Adoro gárgulas.." Não sei se é um comentário comum, mas não lembro de ter escutado. Mas isso também não importa. O que marcou foi a maneira doce e natural com que ela falou. "Elas me fascinam". Vendo meu interesse, ela acrescentou a explicação e confessou, sorrindo, que gostava delas desde o filme O Corcunda de Notre Dame.
Gárgulas... O que são? Temos nossas 'feiúras' que afugentam pessoas. Não necessariamente os maus, como as gárgulas, mas exalamos características que bem ou mal fazem uma triagem: afugentam alguns, aproximam outros. E quando criamos gárgulas?


Na sexta-feira, em aula extra, um rapaz viu minha bolsa do Fórum Social Mundial. Fazia tempo que eu não a utilizava e, ali, ela foi ponto de partida para uma conversa. Ele também tinha ido ao fórum e contou alguns momentos lá, de engajamentos e de diversões. Vi também o livro de francês dele, cheio de adesivos de 'causas' mundiais: Cuba, Palestina etc. Aquilo me marcou.
Causas... O que faz uma pessoa se dedicar a tantas delas? Como se organizar? Como se legitimar? O que isso pede de uma personalidade? Isso me intriga porque me vejo muito inserido nesse mundo de pessoas multiuso, multiengajadas. Vejo-as em mil e uma causas e focos de ação. Até que ponto isso vale? Por outro lado, parecem compensar a maioria que parece dar a mínima.