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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O poder da palavra

Nestes últimos tempos e principalmente depois de ter escrito um pouco sobre isso no outro post, fiquei pensando nesse poder da palavra que diz se algo é arte ou não. Não é algo simples, hoje, quando o acesso a alguns meios é mais fácil, enquanto se torna mais difícil para outros meios. O acesso à história da arte está mais democratizado, mas são poucos aqueles ditos artistas que se dedicam a esse estudo. Depois de fortes críticas às instituições como "lugares da arte", são elas que são capazes de afirmar se alguém é artista ou se um trabalho é ou não arte, embora as pessoas sempre deem seus contornos para contestar. E mais, há várias instituições e revistas e concursos. O visual e a imagem estão tão presentes na vida social, espalhadas em propagandas, filmes, vestimenta e produtos, que "arte " se expande e se retrai, porque as fronteiras parecem fluidas demais.

São muitas as vozes que querem falar hoje; dentre elas, são numerosas as que são ouvidas, e há disputa entre elas. As assimetrias existem e há principalmente dissenso; muito pode ser dito, positiva ou negativamente. É real o poder da palavra.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Arte na rua

Na sexta-feira, participei de um encontro de artistas de intervenção urbana de Fortaleza. O que realmente foi bacana da organização do IntenCidade 2009, 2ª edição, foi concebê-lo na rua mesmo; aliás, uma travessa de paralelepípedos, com pneus e latões, e cadeiras e sofás e o batente da casa para os frequentadores sentarem. Nada mais condizente com o objeto de discussão do evento, na minha opinião. Um notebook ligado a um projetor exibia os vídeos-registro de ações de grupos e coletivos de arte urbana de Fortaleza. Logo após cada vídeo, os realizadores se apresentavam, apresentavam suas propostas e falavam de suas relações com a cidade, sua gente e seus espaços.

Era sexta-feira à noite, dia 18, e a roda pegou fogo quando encerraram as exibições e passaram para o debate final: um dos artistas presentes, que pouco antes havia apresentado seu vídeo, resolveu questionar tudo que todos ali faziam. Se as cervejas tem culpa e foram responsáveis por soltar a língua do cara, ou se tudo não passou de uma performance (por que não, não é mesmo? na minha opinião, ele foi a intervenção urbana da noite), tenho receio de que nunca saberei. Questionou o pensamento dos artistas de que seus trabalhos afetavam as vidas de outras pessoas, de que estavam contribuindo para uma outra cidade, porque, na verdade, todos ali estavam se vendendo e isso não era arte. E mais: disse que muitos falavam de questões sociais e faziam ações à noite, mas, quando aquilo acabava, voltavam para suas casas na Aldeota. E não acabou, tem mais: disse que era para o "pessoal de agora" deixar de achar que vivia o momento da arte urbana em Fortaleza, pensando no prestígio e tal, e cuidar, antes, de se conhecer e planejar ações para a cidade como um todo, para além do eixo Benfica - Centro - Praia de Iracema.

Enfim: o que ele queria dizer? Não sabemos ao certo, mas vamos tentar encontrar pontos-chave em meio à possivel contraditoriedade humana. A fala dele carregava a vontade de ver "um outro mundo", e que isso poderia ser feito pela arte, mas ligada à política e basilada no grupo, em relações mais sólidas entre os grupos de intervenção. E, naquele momento, exigia deles engajamento, visão política e ideais, querendo todos unidos por uma causa comum (a dele, à da dita "justiça social"), dando pouco valor às propostas apresentadas por aqueles jovens. Ora, o próprio trabalho dele era sobre uma obra submetida ao Salão de Abril que contestava o prêmio do Salão, pois os artistas poderiam estar ali mais pelo dinheiro que pela arte. Resultado: ele ganhou o prêmio com a obra. Contradições humanas, como falei. Como diria Maysa, a menina monstra: "Prático, normal".

Teatro 9 diz não para as uniformizações ou tentativas disso. A diversidade de ações e pluralidade de propostas são essenciais para a consolidação não só da cena de arte em Fortaleza, mas para a própria arte, de maneira geral. E, para isso, mais uma vez, defendo o estudo da história da arte. E mais: defendo o estudo da história da arte em Fortaleza. Entre os presentes no IntenCidade, a maioria poderia se dizer artista e, desses, uma parte havia estudado no Cefet (hoje IFET). Mas não conheciam muito sobre outros grupos atuantes na cidade em outras épocas.

Tudo bem, Michel Foucault poderia dizer que a história é uma construção e que não há um desenrolar de eventos; tudo bem, é verdade. Mas a história deve ser, então, (re)construída para dar o exato senso do que existe e do que já existiu: e assim vemos o que já houve, o que há e poderemos pensar no que haverá. Ou não.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Pensar um ensaio fotográfico

Eu demoro para perceber as minhas próprias coisas, meus próprios 'processos'. E por que não dizer processo criativo? Não sei se consigo me 'decifrar' fácil, mas gosto de tentar fazê-lo.
Há algum tempo tenho feito umas brincadeiras com fotografias no computador. São montagens e/ou infogravuras. Inicialmente, tomei minhas fotos 'partidas', seccionadas e tomei o inverso delas, como um espelho, juntando-as. Como gostei do resultado, explorei as possibilidades fazendo o inverso do inverso, juntando 3 versões de uma versão 'original', formando uma peça só. Uma peça confusa, que elabora figuras geométricas, forma ângulos, cria ou amplia movimentos. Um caleidoscópio, às vezes. Mas o que é isso que eu faço?
[Vejam algumas fotos no meu flickr, se quiserem: http://www.flickr.com/photos/jmlima]

E escrevi sobre esse ensaio:

A primeira ideia deste trabalho é que a vida contemporânea é uma experiência complexa. Está balizada em premissas intrincadas que dificultam apreensão. Tentamos construir fronteiras e divisões para melhor capturar elementos e dar sentido a eles. E, então, temos noção de fragmentos, mas o enquadramento é o limite? Podemos dispor vários quadros um ao lado do outro, como uma sequência de partes. Caminhar na experiência contemporânea, porém, coloca o desafio de ir além: tentar juntar pedaços, sobrepondo-os, unindo-os. Não basta procurar as diferenças e marcar fronteiras; o desafio é procurar simultaneamente as semelhanças, desvirtuando as fronteiras construídas. As fronteiras formais (mesmo as tangíveis) não dão conta da dimensão dos corpos que elas tentam definir, porque estes pulsam e vibram em expansão e contração. Os momentos adquirem uma elasticidade espaço-temporal. As imagens não estão atreladas a tempos precisos de segundos, minutos, horas e dias, e as coordenadas espaciais estão na interseção do real e do virtual. O mundo vivido é apreendido diferentemente por cada olhar, por cada “olhador”, que tenta costurar os fragmentos que apreende. Cada olhador se faz entre fios, que amarram quadros ready-made ou por ele criados. Não há um evento puro, isolado; o mundo de hoje não encontra fatos isolados. Cada olhador enxerga com sobreposições, com fronteiras desvirtuadas por interseções.

Mas e aí? O que é isso? Recentemente, me perguntaram qual era a proposta do ensaio, e eu fiquei "ahn ahn ahn q q q". Mas aí, poxa.. As pessoas, quando veem, normalmente perguntam duas coisas: 1) Como faço essas fotos; 2) Onde foi tirada cada foto. A primeira é fácil responder; já a segunda, ora... Caiu a ficha depois! Os fragmentos que extrapolam as fronteiras, que desfocam a visão convencional dos lugares, são o demonstrativo do processo de desterritorialização, expressão já utilizada aqui antes. É um ensaio mundializado, adaptável a qualquer lugar, que quebra a lógica das coordenadas precisas, da orientação em linhas retas, e desterritorializa o observador, porque brinca com suas referências espaciais.

domingo, 1 de novembro de 2009

Buscando algum sentido

Teatro 9 agora é meu suporte para registro de pontos num percurso. Não são percursos, porque mesmo que eu acredite que possa me levar para várias situações, é um percurso porque tenho meu corpo como referencial, e ele não está em mais de um lugar ao mesmo tempo, materialmente. Ou estará? Estamos em dois pontos diferentes simultaneamente? Mas o nosso corpo? Ou nossa mente?

Sinto que é um percurso, que há um todo maior em mim, apesar da multiplicidade de ser. Não sei aonde vou, mas estou indo.

Estou lendo Bourdieu, sobre museus, Canclini, sobre culturas, e artigos sobre políticas culturais, sobre fotografia, sobre arte contemporânea. Criei uma lista de textos que li e quero ter uma banco de dados de citações para referências, para releituras. Estou atrás da minha pinhole, criei um portfólio virtual, tenho um projeto (o pensar) do visual (pode chamar assim?) que tenho feito. Agora só quero continuar pondo em prática. É uma experiência interessante, porque dá prazer e cria sentidos para mim. Uma teia de sentidos, e tento resolver, quase que simbolicamente, um conflito que é bem maior, mas que sinceramente me parece mais palpável. Depois quero trabalhar melhor isso, tentar por em palavras, mas finquei meu corpo na encruzilhada da arte e da política. Não que seja um trabalho político, missionário, mas é pela política que pulsa, é por minha curiosidade; é mais para resolver isso pessoalmente, que para os outros. Se funcionar para os outros, ótimo, se não, paciência.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Apolo e Dafne

Era a aula de História da Arte II, do professor Sá Pessoa. Minha concentração estava desfocada, tentando se encontrar entre um nervoso fervilhar de ideias e o vazio contemplativo, quando ouvi a frase "... a obra de Bernini".
- Vocês conhecem a história de Apolo e Dafne?
Não, eu não conhecia. Quem teria 'encantado' quem? Contou a história em poucas frases, o bastante para intrigar. Mas a escultura de Gian Lorenzo Bernini a fez ecoar nas entranhas. A perfeição das figuras humanas, o movimento dos corpos, as roupas, o gestual impressionam. Há, ainda, o elemento fantástico da transformação. Dafne é metamorfoseada em árvore - um loureiro - aos nossos olhos! Uma casca de madeira surge da terra e cobre sua púbis; de seus dedos, brotam galhos que já exibem folhas. Sua face revela surpresa, que tanto é da proximidade de seu perseguidor, quanto da imprevisibilidade do que a atinge.

A mitologia proporcionou cenas e personagens que inspiraram dezenas de artistas em pintura, mosaico, escultura, gravura. Compartilhavam as histórias da Grécia e de Roma antigas como códigos de uma linguagem artística. Depois, o Cristianismo fez também sua contribuição.
Abaixo, algumas maneiras com que artistas decidiram retratar e/ou expressar a história de Apollo and Daphne.

Pintura de Poussin

Pintor desconhecido.

Pintura de Tiepolo

Detalhe da escultura de Bernini

Pintura de Théodore Chassériau

Escultura de Jacob Auer (inspirado em Bernini).

Da época bizantina (mosaico)

"The kiss", by Klint (mosaico modernista)

-
Essa viagem por imagens, mitologias, histórias e períodos artísticos no Ocidente me inspiraram - "nas artes" - algumas questões referentes à metamorfose, à transformação do corpo, às interseções com a natureza... [continua]

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Descentralização/Democratização

Preocupações com descentralização de equipamentos culturais compõem o panorama das decisões políticas de metrópoles talvez desde os anos 1970. As cidades foram expandidas e cresceram as distâncias de periferia e centro; moradores de áreas periféricas reivindicam, estudiosos criticam e, então, instituições procuram dar a devida resposta às demandas.

Em Nova York, o P.S.1 Contemporary Art Center foi inaugurado em 1976 em Long Island, ocupando uma escola desativada do bairro. Em São Paulo, o Centro Cultural São Paulo (foto) foi inaugurado em 1982 e compunha uma política cultural que buscava distribuir bibliotecas, teatros e casas de cultura por bairros da maior metrópole brasileira.

Em Fortaleza, houve uma onda de centros sociais urbanos a partir dos anos 70. É curioso que pesquisar essas informações é uma luta, pois não há registros fáceis. Encontrei um histórico interessante num blog de discussão ambiental. O autor do blog compara a experiência passada aos atuais CUCAs - Centro Urbano de Cultura, Arte, Ciência e Esporte. Com o passar dos anos, os CSUs mudaram de nome, perderam identidade, público e, hoje, alguns estão abandonados e outros cumprem pequenas funções de serviços.

O primeiro Cuca, uma das bandeiras da prefeita Luizianne Lins (2005-), localiza-se na Barra do Ceará e já tem sido frequentado pela população. A construção está no lugar do antigo e desativado Clube de Regatas, à beira do rio Ceará, e se propõe a democratizar o acesso à cultura na cidade. O projeto da Prefeitura é de construir um Cuca em cada uma das 6 regiões administrativas da cidade.

Outro contexto presente em Fortaleza é o que surgiu com o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (foto). Construído no governo Tasso (1995-2002), a proposta era requalificar uma região pouco utilizada da Praia de Iracema e trabalhar elementos da história cearense, entretenimento, arte e turismo juntos em um grande empreendimento. As críticas à concepção do projeto, tido como centralizador de equipamentos culturais em áreas já servidas, encontram certa solução no governo Lúcio Alcântara (2003-2006), quando uma rede de movimentos sociais do Grande Bom Jardim apresentou projeto de um centro cultural na região. No fim de 2006, era inaugurado o Centro Cultural Bom Jardim.

Uma experiência bem interessante nesse panorama foi a Semana de Arte Moderna da Periferia, realizada em 2007 na cidade de São Paulo. Com o tema "Antropofagia periférica", os organizadores (cooperativas, coletivos, artistas e casas de cultura) programaram eventos para várias localidades da periferia da cidade, problematizando, por meio das exposições, mostras, debates e workshops, as ideias de centro/periferia, descentralização e democratização cultural e de autonomia da periferia.

Há um projeto de instituições e há, também, formas de apropriação pelos cidadãos que frequentam esses lugares. São as relações estabelecidas entre esses dois lados, mediatizadas pelo espaço, que definem rumos possíveis. Esse "diálogo" entre frequentadores e organização, que nem sempre se dá de fato, envolve usos pensados, outros usos e apropriações; nessa interação, sentidos são atribuídos e os projetos são atualizados.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Graffiti - arte das ruas

Os franceses tinham razão: La beauté est dans la rue. Em 1968, as movimentações nas ruas se misturaram à arte, gerando protestos inovadores, principalmente na música. De lá para cá, as cidades se tornaram grandes centros urbanos, verdadeiros caldeirões culturais, que deram origem, entre outras coisas, ao que se conhece como cultura de rua.

Pelo que se sabe, o graffiti foi usado nos Estados Unidos a partir de 1967 para ativismo político e logo em experimentações artísticas. Em 1975, Nova Iorque e Los Angeles já tinham grafiteiros famosos. Depois Londres e Paris, e o mundo.

Mas graffiti é pichação? Embeleza ou suja a cidade? Spray nos muros, nos telefones públicos, nos postes, entre characters e tags - arte urbana? Dependendo da forma, do lugar e do propósito, é prática criminosa por depredar o patrimônio, público ou privado. O deus Wikipédia diz "Diferentemente do Grafite, cuja preocupação é de ordem estética, o piche tem como objetivo a demarcação de territórios entre grupos (as vezes rivais, depende de onde são esses grupos)." No Brasil, como em outros lugares, tem punição para quem é pego pichando.

As idéias são 'pichação é vandalismo' - 'graffiti é arte', tanto que centros culturais chamam grafiteiros para murais, eles expõem em museus etc. Arte urbana é inteligente, moderna, ousada na crítica e na inovação dos traços, da mistura de cores - arte contemporânea. Entre o submundo e o sistema, entre as gangues e a arte; vai do hip hop ao rap, do skate ao grunge e ao metrô, do independente e underground às grandes marcas, do graffiti ao sticker e o stencil.

Graffiti vai do decorativo às assinaturas estilizadas, as tags, e além das exposições de arte, também tem uma literatura, como é o recente NYC BCN - Street Art Revolution. Livro com centenas de fotos de tudo de arte urbana dessas duas cidades, que vi em Brasília. Brasília é BSB. NYC, BCN, BSB... A cidade de concreto e grama tem muita arte urbana por toda parte, mas não aparece como Rio e São Paulo. Não seja por isso. Percorri a W3 Sul de Brasília de bicicleta, na chuvosa manhã de 27 de janeiro, há alguns dias, e estou colocando um pouco do que há nesses 5 km e meio no meu flickr.

Long Island, região de NYC, é lugar do 5 Pointz. A partir de uma exposição do P.S. 1 Contemporary Art Center (afiliado ao famoso MoMA), surgiu a idéia para uma "Mecca do graffiti", como uns chamam. E o lugar é colossal.

O já falecido Jean-Michel Basquiat começou como grafiteiro e daí foi para as artes plásticas, num neo-expressionismo ousado. A revista Juxtapoz faz uma boa cobertura dessa arte, e anteontem publicou "Brazil is home to many of the world’s most talented street artists" (quanta moral), dando destaque para o brasileiro Mateu Velasco. Aqui em Fortaleza, um coletivo de destaque é o Acidum, com trabalhos no muro do CH 1 da UFC, no Dragão do Mar, no entorno do Mercado dos Pinhões, entre outros cantos. É arte que se vê e que se vive - fresh from the streets, orkut?