sábado, 5 de dezembro de 2009

Pensar um ensaio fotográfico

Eu demoro para perceber as minhas próprias coisas, meus próprios 'processos'. E por que não dizer processo criativo? Não sei se consigo me 'decifrar' fácil, mas gosto de tentar fazê-lo.
Há algum tempo tenho feito umas brincadeiras com fotografias no computador. São montagens e/ou infogravuras. Inicialmente, tomei minhas fotos 'partidas', seccionadas e tomei o inverso delas, como um espelho, juntando-as. Como gostei do resultado, explorei as possibilidades fazendo o inverso do inverso, juntando 3 versões de uma versão 'original', formando uma peça só. Uma peça confusa, que elabora figuras geométricas, forma ângulos, cria ou amplia movimentos. Um caleidoscópio, às vezes. Mas o que é isso que eu faço?
[Vejam algumas fotos no meu flickr, se quiserem: http://www.flickr.com/photos/jmlima]

E escrevi sobre esse ensaio:

A primeira ideia deste trabalho é que a vida contemporânea é uma experiência complexa. Está balizada em premissas intrincadas que dificultam apreensão. Tentamos construir fronteiras e divisões para melhor capturar elementos e dar sentido a eles. E, então, temos noção de fragmentos, mas o enquadramento é o limite? Podemos dispor vários quadros um ao lado do outro, como uma sequência de partes. Caminhar na experiência contemporânea, porém, coloca o desafio de ir além: tentar juntar pedaços, sobrepondo-os, unindo-os. Não basta procurar as diferenças e marcar fronteiras; o desafio é procurar simultaneamente as semelhanças, desvirtuando as fronteiras construídas. As fronteiras formais (mesmo as tangíveis) não dão conta da dimensão dos corpos que elas tentam definir, porque estes pulsam e vibram em expansão e contração. Os momentos adquirem uma elasticidade espaço-temporal. As imagens não estão atreladas a tempos precisos de segundos, minutos, horas e dias, e as coordenadas espaciais estão na interseção do real e do virtual. O mundo vivido é apreendido diferentemente por cada olhar, por cada “olhador”, que tenta costurar os fragmentos que apreende. Cada olhador se faz entre fios, que amarram quadros ready-made ou por ele criados. Não há um evento puro, isolado; o mundo de hoje não encontra fatos isolados. Cada olhador enxerga com sobreposições, com fronteiras desvirtuadas por interseções.

Mas e aí? O que é isso? Recentemente, me perguntaram qual era a proposta do ensaio, e eu fiquei "ahn ahn ahn q q q". Mas aí, poxa.. As pessoas, quando veem, normalmente perguntam duas coisas: 1) Como faço essas fotos; 2) Onde foi tirada cada foto. A primeira é fácil responder; já a segunda, ora... Caiu a ficha depois! Os fragmentos que extrapolam as fronteiras, que desfocam a visão convencional dos lugares, são o demonstrativo do processo de desterritorialização, expressão já utilizada aqui antes. É um ensaio mundializado, adaptável a qualquer lugar, que quebra a lógica das coordenadas precisas, da orientação em linhas retas, e desterritorializa o observador, porque brinca com suas referências espaciais.