domingo, 9 de agosto de 2009

Blogs & participação do público

Neste oceano sem-fim das atividades de pessoas na internet (de que este blog é exemplo, obviamente), precisamos encontrar nossos pontos de referência. Por que não pensarmos em faróis? Luzes aqui e ali que emanam como orientação: oi-tô-aqui.

Coleciono links há algum tempo, mas só faz sentido para compartilhar. Os 3 blogs que se seguem tem propostas diferentes e são alimentados pela participação de internautas que se identificaram com a proposta.

// A americana Leslie Waygren tem o site pessoal Lezbag e, dele, criou o blog de mail art (arte postal) Lezbag. Pessoas do mundo inteiro enviavam cartas com desenhos nos envelopes, selos artesanais, cartas estilizadas, pinturas, gravuras etc, e Leslie publicava no blog. Infelizmente, o blog parece estar desativado/ desatualizado/ ou sem-cartas-novas desde novembro/2008.

// O 2º blog deste dossiê é o Blackbird Project, do brasileiro Alexandre Vilas Boas, e também um blog de arte postal. Ele recebe e publica imagens de blackbirds/ pássaros pretos. O projeto tem recebido mais cartas de outros países. Aos poucos, a ideia circula.

// O outro blog foi indicação da Yvanna, e me agradou muito. É o PostSecret, que recebe segredos em postais e imagens de quem quiser compartilhar: dos mais cabeludos e tristes aos mais divertidos. O blog, que garante anonimato, tem versão no Twitter - dá para manter segredo lá?
_
Sobre arte postal: http://sispub.oktiva.com.br/oktiva.net/1237/nota/92113

terça-feira, 21 de julho de 2009

Fotonarrativas: um experimento

Nessas procuras por centros culturais para a mono, me deparei com o Centro Cultural da Juventude, de São Paulo, que até agora é o que acho que mais se aproxima do Centro Cultural Bom Jardim, aqui de Fortaleza. Conheço o CCJ apenas pelo site e por notícias, e, fuçando as atividades divulgadas no site, encontrei uma oficina de fotonarrativas que aconteceu em junho passado. A proposta é simples e bem interessante: tirar fotos num passeio e criar uma história a partir delas.

Domingo, pedalei até a praça Luíza Távora e lugares próximos para fazer esse experimento. Não sou escritor, então apenas publico 4 fotos minhas. Dá para criar alguma história com elas? No mais, fica a dica da oficina.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Coisas de cidade

Vi umas cenas do centro de Los Angeles e a população pobre que nele habita. Imagens que já circularam bastante e, pelo menos a mim, passam sensação estranha. Poderiam me fazer pensar em São Paulo e nessa aura de metrópole cheia de becos, viadutos, prédios, largas avenidas etc, mas não tenho grandes experiências paulistas para essa comparação. Para mim, lembra Brasília.

Andar no centrão de Brasília à noite é uma experiência e tanto: coração a mil entre sombras, escadas, viadutos, árvores de vastas copas e largas avenidas. Às vezes bate um frio que atinge a alma, faz tremer os ossos. Uma adrenalina que brota e que estimula o sentir-se vivo, porque encontra o limiar da ameaça. Andarilho entre blocos de apartamento; poucos eram aqueles abrindo caminhos na escuridão da noite, a pé.

Tem um sticker num dos becos da W3-Sul (uma avenida) que retrata um pouco essa sensação, que ouvi algumas vezes por lá:
Se nevasse em Brasília, morreriam todos de solidão.
*
Hoje foi votação da ARIE do Cocó na Câmara dos Vereadores de Fortaleza. Uma experiência nova de movimento ambiental, em que toda minha turma da faculdade estava presente. Novamente, como nos idos de 2007, tempos de SOS Cocó, uma causa ambiental agregava tanta gente. E, nessa mobilização considerável de jovens estudantes, militantes e outros interessados, movidos por uma causa maior, tive uma profusão de sensações. O agrupamento de estudantes, os gritos de guerra, os vereadores e seus longos discursos, a evidente disputa de interesses, outros atos de manifestação acontecendo simultaneamente... Durkheim e sua consciência coletiva - o coletivo maior, movendo os indivíduos em torno de algo com sentido em si. O grupo garantindo poder aos que faziam parte.
*
Pensando em: ciência - arte - sono - barulho - viagens.

trilha sonora: Eddie Vedder - Trilha sonora de Into the Wild.

sábado, 13 de junho de 2009

Henry David Thoreau


Read not the Times. Read the Eternities. Conventionalities are at length as bad as impurities. Even the facts of science may dust the mind by their dryness, unless they are in a sense effaced each morning, or rather rendered fertile by the dews of fresh and living truth. Knowledge does not come to us by details, but in flashes of light from heaven.

- Henry David Thoreau.

"Life without principle" (1863)

domingo, 31 de maio de 2009

Para onde vai a narrativa?

Hoje eu caminhava com meu pai, e nossa conversa se centrou por um tempo no tópico narrativas. Eu falava de documentários com depoimentos de pescadores, e ele disse ter vontade trabalhar com o registo de histórias de vida e citou o (fantástico) Museu da Pessoa. E eu disse:
- Fizeram um documentário, no Bom Jardim, com depoimentos das pessoas de lá sobre como é morar no bairro, do que gostam, do que não gostam. Fiquei sabendo lá no Centro Cultural, mas não vi. Uma coisa legal, que inclusive vou colocar no meu trabalho [estou fazendo um trabalho sobre o Bom Jardim], é que, nas programações [...] tem um espacinho todo mês com um morador da região. Tem uma foto e umas 3 linhas com elas dizendo há quanto tempo moram lá, o que acham do centro cultural, o que fazem...

Ele falou de um colega que trabalha com entrevistas com pessoas "importantes", para formar um banco de imagens. O cara grava em mini-dv, parece. Ele não soube me dizer, muito menos eu, mas não é dvd, muito menos fita. Ele usa um formato menor, que será "o formato do futuro".
- Daqui a pouco, dvd já fica ultrapassado. Vai ser mais uma dificuldade; tudo vai se perder.

Parei o que fazia para postar aqui, porque li uma resenha que puxou a conversa de hoje de manhã, umas discussões de semanas atrás e uns pensamentos mais antigos: para onde vai a narrativa? Para vai o conhecimento?No início do século XX, Walter Benjamin se preocupou com a massificação de obras culturais, com a morte das grandes narrativas e com a rapidez do moderno. Mas e hoje? Temos um volume gigantesco de saberes e produções digitalizados, circulando na internet. Não me assusta tanto que a maioria das pessoas possa falar sobre si e sobre as coisas (afinal, o que estou fazendo aqui, não é verdade?), mas me assusta o risco de perder o que circula pela internet, por nem tudo ter registro material.
Acho que Benjamin é de grande validade para pensarmos aonde chegamos e imaginarmos o porvir [como disse um amigo meu, é dignoválido]. Algumas questões permanecem, embora em outra roupagem, pois, se ele se preocupava com cópia e autoria nas artes, essa preocupação continua! E é muito polêmica.

A seção Internet do Cronópios reúne bons artigos sobre essa questão.
Foi assunto no jornal O Povo de hoje, também.

sábado, 9 de maio de 2009

Ligando espaços

Sinto-me eternamente preso a descompassos e hesitações, e este blog é sempre um motivo, toda vez que quero me expressar, me comunicar, e sinto que deveria vir aqui. E venho. E penso, e hesito: o que deveria eu publicar aqui? Pensamentos existenciais? Criações, vontades, desejos? Assuntos do cotidiano? Pseudoensaios? E ainda tem outra coisa: que pensam os poucos que passam por aqui (por quererem ou por acidente) do nome Teatro 9? Isso não me importaria, se não fosse a referência a um lugar, uma estrutura de lugar que existe por toda a parte: o teatro.

Teatro, um lugar de encenações, personagens, atos, conflitos, amores; movimentações pensadas, trabalhadas, ensaiadas que precisam de público, de outros, de interação, de crítica, de presença, de envolvimento, de deixar uma marca. Todos nós deixamos marcas, pegadas, trilhas. Marcamos de alguma forma por nossas interações em espaços, que há certo tempo podem ser lugares virtuais (sites, blogs, fóruns, contas de e-mail, programa de compartilhamento) e lugares virtuais construídos com base no mundo 'real'. Estamos em lugares ou fazemos referências a eles, pelas pessoas que estão neles, que os ocupam.

Num certo seminário sobre Walter Benjamin, perguntaram: "a cidade que habita os homens ou são eles que habitam nela?" A cidade está em nós e estamos nela. Construímos coisas que se tornam maiores que nós mesmos, e a cidade é apenas uma dessas coisas. Quando nasci, Fortaleza já existia, mas mudou muito desde que cheguei. O que Fortaleza tem de mim? E não falo da Fortaleza-metonímia, referindo-me aos fortalezenses que conheço, pois, entre as pessoas, as marcas são diárias. Falo do espaço Fortaleza: onde estou nela, para além de minha casa?

Dizem por aí que os homens (e por que não as mulheres, também?) devem ter um filho, plantar uma árvore e publicar o livro: marcas, pegadas. Deixar um pouco de si mesmo, colocar-se para o futuro, já que você morrerá como corpo físico ativo, ligado a uma mente, mas deseja ficar pelo que é: corpo e mente no filho; a relação de analogia corpo=ser humano=ser da natureza, na árvore, para manter a conexão com a T/terra; e a mente, no livro. E os três no lugar, todos existirem em algum lugar.
*
Acontecimentos últimos me fizeram repensar a linha de sentido entre o que faço no que pretendo ser meu ofício: estudar a vida em sociedade. O que une meus temas tão variados? Globalização, feiras livres, ONGs, bairros de periferia, permacultura, redes virtuais...

Michel Foucault me voltou algumas vezes esta semana, e a resposta está nele: microfísica do poder. Se os poderes são exercidos e praticados capilarmente, estarei atrás deles - e eles ocupam espaços.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Práticas ecoamigáveis #1

Quanto mais entro no mundo do ambientalismo para tentar entendê-lo "antropologicamente", mais eu retorno para o início, para as minhas origens na coisa em si. Questionamentos adormecidos por talvez serem muito básicos, por eu ter tentado respondê-los várias vezes e por conta também de um certo distanciamento que eu supunha ter hoje - mas que não tenho e nem quero ter - do assunto, comparando com momentos anteriores. O questionamento principal é a correspondência entre pensamento/discurso e prática/ação. A legitimidade do ambientalista está, claro, em satisfazer essa relação, pois "não basta só falar". A mudança existe quando o pensamento está orientado de tal maneira por pressupostos que sua ação corresponde a esses princípios.

Tal como o Personal Sustainability Project [que tentei fazer de objeto de estudo na faculdade, mas recebi um 'não'], vou mudar pequenas coisas por período de tempo. O objetivo do PSP é que as mudanças sejam motivadas por vontade e que façam a pessoa feliz, e não por obrigação ou por sentimento de culpa perante o mundo. [isso ainda me intriga; acho que daria um bom trabalho jogar com essas duas perspectivas..]

Vivo achando que faço nada, mas acredito que tenha feito e faça coisas no meu cotidiano. Estes posts vão funcionar como registro pessoal (até para que eu me convença):

1 A primeira coisa que lembro foi papel reciclado. Tem coisa mais bonita? Comprei uma resma de folhas recicladas ano passado (setembro, eu acho), e quase todos os trabalhos da faculdade que imprimo em casa são em papel reciclado. Alegam que seja caro e, tudo bem, é um pouco, mas fiz pesquisa de preço e encontrei por R$13. Foi uma compra feliz e me agrada utilizá-lo.

2 Acho que a segunda coisa foi trocar minha lâmpada incandescente do banheiro por uma fluorescente. Esta é mais eficiente porque a luminosidade não vem por calor e ilumina melhor, o que é bom para quem gosta de ler no banheiro às vezes, como eu. Por mais que eu goste (visualmente) da luz amarelada, não sinto falta.

3 Há mais de 3 semanas iniciei (finalmente) a experiência de levar uma caneca para a faculdade. Almoço lá 4 dias na semana e utilizava dos copos descartáveis, mesmo sem querer. Achei que seria transtorno explicar para alguns dos atendentes mal-encarados do Restaurante Universitário. Entendem do que falo? O momento em que você supera pequenas limitações é quando aquilo faz tanto sentido a ponto de você transformar a idéia em ação. Primeiro, peguei um copinho descartável usado de lá, enchi de água e marquei o nível correspondente do copo na caneca. No dia seguinte, fui pra lá munido da caneca e pensei a estratégia que fizesse sentido ao cara do suco: eu pegava um copinho descartável com suco, virava na caneca, e ele encheria novamente para dar pro meu amigo. Mas o cara resmungou e jogou o copo fora! Ou seja, primeira experiência frustrante. Acho que não tinha sido claro o bastante!No dia seguinte, lá estava eu com a caneca e expliquei que estava com uma caneca, tinha marc... Mas ele simplesmente pegou a caneca e encheu! Tudo bem, ponto para nós. :D Dias depois, fiquei feliz de ver que uma menina da minha sala também levava copinho de casa. Não estou só.
Desde segunda-feira, cada um enche seu próprio copinho, e eu encho minha caneca eu mesmo. Estou sendo bem-sucedido e acho que já poupei pelo menos 15 copinhos. Quantos são jogados fora diariamente? Quantos pouparei até o meio do ano?

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Na natureza selvagem

{primeiro texto de 7 de março de 2009 ~ na geladeira por um tempo ~ juntei agora com outras referências}

Ano passado, minha irmã alugou esse filme. Apenas passei pela tv, e uma paisagem deslumbrante me obrigou a ficar e ver uma parte. "Alex Supertramp" queria percorrer um rio e violou uma lei para fazê-lo, pois a burocracia exigia autorização de meses antes. Não gostei do que vi, saí, mas depois voltei. A história dele me causava náusea; eu via, em filme, algo que eu poderia muito bem fazer.
Seis meses depois vi Into the Wild na tv, mas agora por inteiro e sozinho. Gostei - com toda a intensidade que este verbo pode ter.

Sobre a história, alimentei uma discussão na faculdade. McCandless morreu arrependido da jornada? "Ele terminou pensando nos pais, na irmã, nas pessoas que tinha conhecido. Ele escreveu que felicidade só é vivida se compartilhada! Ele queria voltar". Mas querer voltar significa que a jornada havia valido, tinha sido elucidado prioridades. Ele havia sido feliz, havia compartilhado sua vida com estranhos, aventurado-se, sido ele mesmo, sozinho ou acompanhado.
O extremismo da jornada ao Alasca, apesar de ter se deparado com lírios no campo até lá, é a demonstração do desejo pela purificação, do combate aos "demônios". Não apóio a idéia de que os pais são aqueles que podemos culpar por tudo, mas devemos 'matá-los' em algum momento. Não seguir o esperado foi a forma de McCandless fazê-lo; sua jornada da alma, viver da natureza, mesmo quando matar um alce surpreende a ele mesmo. Ele precisava viajar sozinho, anônimo, porque isso que tinha algum significado. Quando quis deixar o Alasca, vejo que foi pela realização de que combater o vazio da hipocrisia dos valores da sociedade era algo que encontrava força nele mesmo, mas ele precisara deixar tudo, ver a si mesmo no distanciamento dos outros, sair da lógica em que pessoas desempenham esses valores, para não só viver conforme seus próprios valores idealizados, mas também de se sentir preparado para voltar - para o quê, não sabemos.
Pensar nos pais na hora da morte acho que veio mais pela conexão da agonia da intoxição com a agonia de viver junto a seus pais, e suas felicidades forjadas, de fachada, enquanto viviam como inimigos. E também... é um filme. Será que ele realmente pensou nos pais ao final? Ele queria voltar para eles? O filme foi feito a partir do diário. Pensar nos pais pode ter sido desejo da irmã, da biografia, do diretor.
Para mim, o que fica é a jornada. A 'necessidade' da missão que se contrapõe a outros e que pretende chegar a algum lugar.
- - -
Ontem [8 de abril] , no curso de Sistemas Simbólicos, vimos o filme 'O Homem-urso' (Grizzly Bear, 2005), que conta a história verídica de Timothy Treadwell, um ambientalista estadunidense que se isola entre os ursos grizzly no Alasca, como forma de chamar a atenção das pessoas para a proteção dos animais. Com uma filmadora, ele gravava a si mesmo falando para "as pessoas", um público que se sensibilizaria com a causa.
O filme me lembrou bastante 'Na natureza selvagem' por alguns aspectos. Os 'heróis' identificam a vida pregressa ou a vida em sociedade como vazia de sentido e se colocam numa missão, uma jornada que os leva para a pureza da vida, que é a vida em natureza. Renunciam, de certo modo, e cada qual à sua maneira, à vida na lógica contemporânea, renunciam ao comportamento que é esperado deles. Os dois no final enfrentam a morte, mas por isso que suas histórias se tornaram mais conhecidas, abrindo a possibilidade de falarmos sobre eles; eles permanecem vivos, de certa forma.
O que faz alguém abandonar tudo? Quais são as motivações? Contra o quê se colocam?
- - -
Hoje [9 de abril], vi a segunda parte do disco 1 de 'O Poder do Mito' (The Power of Myth), na qual Joseph Campbell, o estudioso de mitologia, fala de metáforas, significados e experiências de mitos hoje. Depois de adentrar a controvérsia que é dizer que deveríamos ser nós mesmos na lógica que existe, ele levanta o mito de Indra. Há algumas versões e histórias relacionadas a esse rei dos deuses da Índia, sendo uma delas a citada: "Indra e as formigas", presente no Brahmavaivarta Purana. Ao perceber que o mundo está em ciclos de surgimento e destruição, Indra se torna humilde perante suas pretensões de grande rei e decide se tornar iogue (yogi) e se isolar. A mulher dele não aceita, procura um líder espiritual e esse aconselha Indra a ficar como rei, pois esse é seu lugar. Ele deveria encontrar, como líder político, uma forma de ser espiritual.
* * * * *
Bem... No próprio filme, Campbell fala dos heróis, os grandes líderes espirituais que foram Buda, Jesus e Maomé, e como todos esses tiveram momentos de isolamento para se depurarem e encontrarem sua missão. Por que, então, a missão de Indra deveria ser tomada como líder político? Também esse era um dos dois destinos esperados de Siddharta: líder político ou líder espiritual. O isolamento foi para se encontrar. Seria possível, então, para Indra se encontrar sem sair fisicamente? O encontro com os deuses teria sido o bastante? A história é para aceitar o destino que nos é apontado, mesmo que imprimamos mudanças nele?
Christopher McCandless e Timothy Treadwell deveriam ter ficado? Deveriam ter tentado serem outros nos seus lugares anteriores? Mas também... hoje, o que é o lugar? Há um lugar para se permanecer? Há um destino para seguir? O mundo deveria ou não deveria estar aberto para o deslocamento?

domingo, 5 de abril de 2009

Pessoas no começo de abril

Quinta-feira, uma moça que, apesar de estar aprendendo, como todos nós, tem uma ótima pronúncia sentou-se do meu lado. Abrimos o livro na página indicada por nossa professora e escuto: "Adoro gárgulas.." Não sei se é um comentário comum, mas não lembro de ter escutado. Mas isso também não importa. O que marcou foi a maneira doce e natural com que ela falou. "Elas me fascinam". Vendo meu interesse, ela acrescentou a explicação e confessou, sorrindo, que gostava delas desde o filme O Corcunda de Notre Dame.
Gárgulas... O que são? Temos nossas 'feiúras' que afugentam pessoas. Não necessariamente os maus, como as gárgulas, mas exalamos características que bem ou mal fazem uma triagem: afugentam alguns, aproximam outros. E quando criamos gárgulas?


Na sexta-feira, em aula extra, um rapaz viu minha bolsa do Fórum Social Mundial. Fazia tempo que eu não a utilizava e, ali, ela foi ponto de partida para uma conversa. Ele também tinha ido ao fórum e contou alguns momentos lá, de engajamentos e de diversões. Vi também o livro de francês dele, cheio de adesivos de 'causas' mundiais: Cuba, Palestina etc. Aquilo me marcou.
Causas... O que faz uma pessoa se dedicar a tantas delas? Como se organizar? Como se legitimar? O que isso pede de uma personalidade? Isso me intriga porque me vejo muito inserido nesse mundo de pessoas multiuso, multiengajadas. Vejo-as em mil e uma causas e focos de ação. Até que ponto isso vale? Por outro lado, parecem compensar a maioria que parece dar a mínima.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Homem-natureza na tribo e na cidade

Tem algum tempo que um assunto está martelando meus pensamentos, porque além de ser uma preocupação pessoal, é também uma questão social. Alguns poderiam chamar de modo de produção, outros de cultura material; enfim, como é hoje nossa relação com a natureza para a construção cotidiana da vida contemporânea?
A vida urbana oferece a realização da necessidade de alimentação pelo comércio, assim como outras necessidades criadas na própria vida urbana. Necessidades criadas, que logo criam relações de dependência e importância em si mesmas. Produtos tecnológicos que nos fazem pensar como antes conseguiam viver sem, e.g. celular, computador, internet, avião etc. E também outras mercadorias que compõem o cotidiano, como quinquilharias, copos descartáveis, junk food, etc etc etc. De que são feitas essas coisas?
No meu curso de Antropologia II, lembro bem do capítulo de Argonautas do Pacífico Ocidental no qual Malinowski descreveu os modos de construção de canoas, explicitando os tipos de madeira, os dias recomendados, as modalidades de corte, as possibilidades de flutuação numa descrição entendiosa e sem fim. Estava sendo ali divulgado o modo de construção de canoas. Qual é o modo de construção de um celular? Há matérias-primas tão diversas, e são tantos os produtos hoje, que é complicado ter controle sobre como e de quê todos são feitos. O distanciamento na relação homem e natureza é cada vez maior entre os citadinos, apesar dos que intentam o contrário, apresentando-se como alternativas.
Para ilustrar o caso das sociedades contemporâneas, um shopping center aparece como o grande lugar do consumo, na sua variedade de lojas e opção de produtos, inclusive com supermercados - o lugar do excesso e do desperdício.
Essa imagem contrasta bastante com as imagens que o Fórum Social Mundial 2009 se empenhou em transmitir na edição realizada Belém, região "pan-amazônica". A crítica ao atual modelo hegemônico de sociedade - a sociedade de consumo - fez-se com a apresentação de uma alternativa localizada no extremo oposto, se colocarmos a "sociedade de consumo" numa ponta, as sociedades indígenas da Amazônia apareceriam talvez na outra ponta. O impacto das sociedades indígenas amazônicas no ambiente em que vivem é entendido como menor que o nosso. Tudo bem, isso parece claro no senso comum, mas também as proporções das sociedades são diferentes. Os estilos de vida dos 'povos originários' apareceram como referências ideais para pensarmos nossa relação com a natureza, muito embora entendamos que o caminho passa também (e talvez principalmente) pelo uso (inteligente, eu posso dizer isso?) de novas tecnologias. Assim como as canoas para os trobriandeses, o arco e flecha, as armadilhas, as técnicas de agricultura e de extrativismo e as atuais técnicas complementares para os indígenas amazônicos, a construção material da vida contemporânea perpassaria quais técnicas para uma relação homem-natureza que mudasse de rota para uma maior harmonia? O empenho da dita 'consciência ambiental' entra em choque com as tecnologias, com as decisões políticas, com a cultura, com a sociedade de consumo...?

ps: hoje vi um pedaço da aula de Antropologia I, ministrada por minha professora de Antropologia II, e lembrei de como me sentia em suas aulas, o que ela me permitiu pensar, tanto por suas falas, como por suas leituras sugeridas. Tive vontade de falar com ela no final, agradecê-la, fazer um acknowledgement, mas a trava pessoal falou mais alto - por enquanto.